terça-feira, 17 de novembro de 2009

Ele e ela

Tudo para ele apagou! Seus olhos passeavam nas órbitas, procuravam o que não se podia achar: luz.
De repente, em um salto, contabilizou os fatos. O gosto amargo na boca o convencia de medicamentos em excesso e sentia uma tontura sem igual. TUM! Cai no chão devido, é claro, à agitação. Segundos depois, uma voz aguda grita ao fundo em tom apressado e diante dele, então, é aberta uma porta de hospital. "Emergência! Emergência!" gritavam os enfermeiros levantando-o para o alto da maca novamente. A confusão era tamanha que a sua mente ainda um pouco afundada no efeito dos entorpecentes, não resistiu e distanciou-se da cena não calando apenas o som estridente de sirene.
Ela recuperou os sentidos em um enorme quarto branco. Os apitos de aparelhos diversos e lamentos ao seu redor pareceram não forçá-la a localizar-se e, sem mais delongas, tentou se levantar. No primeiro passo, deparou-se com os olhos do homem que atacara e, só então, seu lábio tremeu.
Uma enfermeira presenciou a estranha cena dos recém chegados aos soluços. Há poucos minutos dada como "nova solteira", não tinha mais muitos pensamentos a não ser no seu amado foragido. Ignorou os não autorizados fora do leito e foi aquecer mais água.
De repente, ela correu. Correu como se toda sua vida dependesse disso. E com o desconhecido homem no seu encalço, encontrou a saída. Encontrou o portal do seu desespero.

sexta-feira, 17 de abril de 2009

O Relojoeiro

Uma manhã sem muito sol, quase tomada por brisas que com alegria tocavam os lugares que precisavam de seu toque de frescor. Entre tantas pessoas indo e vindo pela calçada, carros passando como se não se importassem com o que há ao redor, um Garoto se destacava, bufando de cansaço da caminhada, mesmo que curta e carregando à mãos um relógio de bolso, aparentemente muito antigo e bonito.

Ele o levava com tristesa, segurando firme nas mãos, pedindo para si mesmo por ajuda, não queria deixar que aquilo acontecesse, o relógio óbviamente significava muito para ele. E assim ele notou ao mesmo tempo que estranhou a presença de um homem marcado pelo tempo, raquítico, coberto de roupas quentes e de cores sóbrias, com uma boina cinza, óculos largos e olhar ao mesmo tempo distante e atento, observando um Beija-Flor bebericar nas flores de uma Figueira. Toda essa cena parecia bucólica e surreal para o Menino, em parte pelo fato da banca, se é que podia ser chamada assim, do Velho parecia estar ali apenas para ele ter um lugar onde apoiar os braços. Não onde trabalhar.

Mas obstante à isso, o Relojoeiro, as duas cadeiras e a bancada pareciam pertencer a aquele lugar, como se lá tivessem nascido, como se de lá nunca tivessem saído.

O Garoto percebeu que o olhar do Velho mudou sua atenção para ele, como se inquisitivamente esperasse alguma reação do invasor de seu espaço imaculado.

O Jovem tímidamente estendeu os braços com o relógio e o colocando em cima da bancada sendo acompanhado pelos olhos curiosos e ao mesmo tempo que cheios de respostas. Na verdade não sabia que o homem podia consertar relógios, mas por algum motivo sabia que ele podia resolver o seu problema. Todo o processo foi confuso, o Relojoeiro desapoiou os braços da bancada e os revelou trêmulos, quase dignos de pena. Mas assim que os colocou no relógio, tornaram-se hábeis e capazes, rapidamente desmontando peça por peça sem sequer dar a entender que deixaria de doar atenção para alguma delas. Entre isso tudo, fez uma breve mesura para que o Garoto se sentasse na cadeira de frente para a dele

O Relojoeiro ajeitou os óculos, não permitiu que o menino dissesse qual era o defeito e após dispôr as peças de forma ordenada sobre a mesa apenas as observou, como se tentasse lê-las, entendê-las, conversar com elas. Quando de repente o Velho começou a movimentá-las, como se as regesse e encaixava, transformando aquele amontoado de engrenagens e metais em algo.

O Menino apenas observava, intrigado e maravilhado com o que aos olhos dele parecia mágica, transformar aquele monte de nada em alguma coisa, misturando a curiosidade que todo o Garoto tem por aparelhos com o fascínio que as habilidades de outros podem prover.

Nesse meio tempo, eles conversaram sobre tudo o que era possível para dois desconhecidos conversarem nesse meio-tempo. O Menino soube que o Relojoeiro morava por ali haviam 20 anos, quase o dobro do que o Jovem tinha de vida, que ele teve uma loja de relógios, o quanto ele gostava do tempo e o quanto à ele se dedicava. Descobriu que o Senhor aprendeu o ofício com o pai, que por sua vez aprendeu com o tio, que aprendeu com o pai.

O Menino contou que nasceu no lugar, as matérias que mais gostava na escola, que aquele relógio pertenceu a seu falecido pai e lhe foi dado como uma lembrança e o quão importante é que continue funcionando, porque a parada do relógio também significava uma segunda morte do pai além de ele ter mais de 100 anos, um período de tempo que o Garoto conseguia mensurar, mas era jovem demais para entender.

O Relojoeiro vez ou outra interrompia para mostrar os meandros do funcionamento daquela "obra de arte" ele dizia ao se referir ao relógio, até que em um momento a conversa parou bruscamente. Não por uma razão grave, apenas por não haver mais assunto.

E entre os sons das peças, parafusos e engrenagens se unindo o menino desviou sua atenção para a Figueira, forte e frondosa como qualquer árvore em flores deveria ser, novamente sendo visitada pelo Beija-Flor que dessa vez parecia não querer mais provar das flores, ele estava mais interessado em impedir que uma Borboleta ali o fizesse. Consecutivamente atrapalhando-a ao se alimentar, o que acabou resultando em algo que se assemelhava à uma dança e que prendia a atenção do Menino com facilidade, arrancando dele risadas.

Depois de um tempo, que o Garoto não soube direito calcular quanto, ouve-se o ruído do relógio sobre a mesa, como se fosse uma forma do Velho avisá-lo de que o trabalho acabou. Ele então testou o relógio e viu que funcionava perfeitamente! Quase como se tivesse sido fabricado lá mesmo! O menino ficou maravilhado, perguntava ao Senhor como ele havia descoberto o defeito, como ele conseguiu consertar o relógio sem informação nenhuma a respeito dele?

O Relojoeiro foi muito calmo e cuidadoso com as palavras, tentou responder todas as indagações do garoto de forma que alguém tão jovem, e não familiarizado com a arte da relojoaria entendesse. Ele disse que as engrenagens, os ponteiros, o corpo e até os números falavam, eles não podiam apenas indicar que horas eram, mas também o que tem de errado com eles. Tudo o que precisava fazer era separá-los e conversar com cada um individualmente.

Satisfeito com a resposta e alarmado por estar atrasado para o almoço, o Menino quase salta da cadeira em que estava sentado tamanha sua alegria, por um momento esquecendo que deveria pagar pelo seviço. Ele que antes estava tão preocupado em perder o relógio do pai já que nem mesmo ele tinha certeza absoluta de como o aparelho quebrara, afinal, a coisa simplesmente parou de funcionar sem mais nem menos.

Ele pagou o combinado e saiu de lá tão eufórico que esquecera de agradecer e não percebeu o sorriso de satisfação do Velho, por um motivo não identificável. Enquanto via a alegria da Criança, ajeitou seus óculos e analisou suas ferramentas.

O Menino chegu em casa quase explodindo de alegria, mostrou o relógio para a Mãe que se surpreendeu ao vê-lo funcionando, perguntou ao Filho onde conseguiu alguém para consertá-lo, o Garoto então contou toda a história de como estava triste por correr o risco de perder o relógio e como quase que por mágica encontrou o velho Relojoeiro. Descreveu ele e como o mesmo arrumou o relógio.

A Mãe estranhou, nunca tinha visto ou ouvido falar do Velho, e morava ali à muito mais que 20 anos. Disse que não era possível, que o único relojoeiro na região ficava muito mais longe do que isso e que ele jamais consertaria um relógio tão antigo de uma hora para outra em uma bancada embaixo de uma árvore com algumas poucas ferramentas.

O Garoto se indignou, discutiu com a mãe, alegava que tinha visto, e que não existia prova maior do que o relógio funcionando como se fosse novo! Disse que voltaria lá, agradeceria o Relojoeiro como tinha esquecido de fazer e o traria para mostrar à mãe que não estava mentindo.

Não muito depois, o menino estava de volta ao lugar onde deveria estar o Relojoeiro, mas ele não mais estava lá. Nem a Figueira. Nem o Beija-Flor. Nem a Borboleta. Não haviam bancada ou cadeiras, mal havia grama. Era um monte de nada tão melancólico que não era a toa que ninguém passava muito tempo prestando atenção. Aquilo era triste.

O lugar não era nem metade do que o Menino havia visto, do que havia vivido. Era como se nunca estivesse lá, mas ele sabia que tinha acontecido.

Era como sua mãe tinha dito, mas não era como ele viveu.

sexta-feira, 10 de abril de 2009

Estela

A noite colocava-se cuidadosamente no céu, sem forma, sem aconchego. Meus dedos tremiam... Céus, como poderia convencer-me da minha desgraça? Estava vendendo minhas malditas ideias a milhões e afundando-me no desprezo e traição da minha imaginação. Meus dias estavam contados.
Sem ela, a casa ficava triste, as horas não andavam. Sem ela, o despertar de cada segundo incomodava, induzia à fadiga. Meus dedos... Ainda trêmulos, me levaram a reparar: estavam amarelados, carcomidos pelo tempo e pelo vício. Maldito cigarro que ela colocou na minha vida e não soube tirar a tempo! Um samba rolava ao fundo, mas não me interessava mais saber qual. Maldita mulher!
Foi aí que me deparei com os infinitos dias que não via Estela: não passavam de quinze minutos!
Minha ânsia fez-me ensaiar um pouco antes que pudesse cair sobre aqueles travesseiros mansos e traiçoeiros. O cheiro dela, o gosto de suas lágrimas, tudo invadia meu ser... O sangue... Ah, o sangue! E pensar que tudo começou com uma carta. Ela disse que não me amava, que seria de outro, que tinha medo... Por que deixou aquilo nas minhas mãos? Estremeci.
Meus olhos foram tomados de uma ferrugem, o corpo gelou. Minha memória, sempre, em parte, apagada, mostrava-me novamente. Meu médico me dizia ter que tomar cuidado, em ruídos, Estela gritava, uma faca, um aviso, personalidades múltiplas, um riso cruel, o escuro.

Ah, Estela! Como sinto sua falta... Maldita mulher!

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

Lethal Strip Flush

Minhas mãos ágeis mexem nas cartas, rapidamente, conforme avalio meu jogo. Finjo me concentrar muito, enquanto me esforço para admirar a abertura de seu vestido, que me faz devanear por entre locais indômitos. A, o que eu não daria por um aljôfar de seu gosto, por um toque naquela pele macia. Volto ao pôquer, ao notar uma certa desconfiança do crupiê em relação ao meu comportamento.

Nas 10 rodadas seguintes, só aposto muito quando sei que vou perder, faz tudo parte do jogo. Manipulo a mesa para ela achar que está difícil, faço apostas de forma a fazê-la pensar que tenho tudo, evito mostrar minha mão e xingo e em enervo quando perco. Ganho uma ou outra para evitar desconfiança.

Depois de algumas centenas de milhares eu pareço patético e "arrisco" tudo num lance só.
Perco com vontade, meu "All In" fracasssado me consome por dentro, perdi dinheiro suficiente para manter uma família de classe média feliz por uma década.
Meus lábios tremem, e eu ofereço um brinde a ela. Proponho mais uma rodada , apostando meu carro (um desses esportivos que valem mais do que muitas mansões, mas cujo nome eu nem me dou ao trabalho de decorar) contra a promessa dela de um drinque comigo para celebrar sua vitória.Ela aceita.

Eu jogo a rodada seguinte de forma que nem o demônio seria capaz. Vitória fácil, me levanto triunfante, ela enlaça meu braço e vamos ao meu quarto para o drinque: o que vem em seguida é uma nova versão do que houve antes, um jogo de suor e tentativas, blefes e expectativas, charme, violência, truqes na manga, apostas e prazer da vitória, além de uma certa tristeza porque acabou.

Duas horas depois meu saldo é o que eu esperava: gastei dinheiro suficiente para acabar comas finanças de muita gente, mas passei a noite com uma mulher tão rica, maravilhosa, sensual e desejada que dinheiro algum poderia comprar diretamente, nem mesmo com meu charme incluso na equação... até que percebo uma estranha movimentação e finalmente entendo. Eu adormeci e deixei minahs coisas desprotagidas: ela pode ter pego meus cartões, minha chave do carro, tudo o que eu imaginei que poderia ganhar de volta no jogo, mas não se ela os tomar de outra forma.

Me levantoi decidido a encontrá-la quando me deparo com ela sentada, já vestida, de frente para mim, segurando uma arma em uma das mãos e uma fotografia na outra. Olhando para a fotografia não entendo, penso tratar-se de um assalto ou sequestro, quando ela finalmente abre a boca e diz:" Não a reconhece? Uma pena, vcocê vai sofrer a vingança sem nem se lembrar de seu pecado. A pobre moçoila se apaixonou por você , e você a usou como pôde. Ela não aguentou a pressão e se suicidou. Agora a irmã dela me contratou para fazer você sentir uma dor similar..."

Me desespero e me atiro de joelhos, tentando usar o meu charme e a piedade dela para me salvar, ams ela só parece se divertir mais com a cena, quando reparo numa câmera filmadora com tripé posicionada à minha esquerda. Alguém deve estar assistindo isso, mas é tarde demais para ligar para a minha dignidade.

Ela volta a falar: " Agora, é bom que saiba o que vai acontecer, lhe darei três tiros, e nunca saberão pelo que você morreu, já temos uma equipe preparada para revelar todas as suas sujeiras, suas dívidas, as vezes que subornou autoridades para se safar, sua covardia em vídeo, como deve ter notado, em suma, você não só vai morrer, mas não vai deixar nenhuma boa lembrança. Pronto para receber o que merece, projeto de homem?"

Começo a chorar desesperado, meu charme se despedaça, minha pose se desfaz e sou só mais um pobre coitado no chão, quando vejo-a afixar um silenciador à pistola, fecho meus olhos e começo a rezar, com fervor de verdade pela primeira vez em minha vida, e aí vêm os três tiros rápidos. Demoro um pouco para perceber que ainda estou vivo. Sinto dor nas mãos e na virilha, ao abrir os olhos, reparo no que ela fez, antes de ouvir a gargalhada cruel. Ela me incapacitou de jogar e de fazer sexo, tudo o que me dava prazer na vida, no ponto em que cheguei.
Irrompo em gritos e choro desesperado, pedindo-lhe que me mate de uma vez, ela apenas sorri, joga a arma pela janela do quarto, me dá um chute, me derrubando deitado e sai pela porta, calmamente.

Alguns minutos de dor e depressão depois, entram pela porta vários jornalistas e fotógrafos, seguidos de perto pro paramédicos, já consigo ver a primeira página do jornal: "Playboy milionário é aleijado por vingança" ,"Figurão quase morre por dívidas de drogas".
Sigo na maca despedaçado , tentando entender o que farei de minah vida agora, e não posso deixar de notar os sorrisos das pessoas.

Não importa quão bem se jogue, um dia todo mundo pega uma mão ruim.

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Amor...

[introduzo o texto apenas comentando algo que achei necessário dizer. Tenho uma amiga que, sabiamente (ou não) afirma dizer não precisar de homens quando tem um livro para sentar e deliciar-se lendo!... Pois quando vi essa imagem, não só lembrei dela como pensei no que escrever...]

Envolvo minha desesperada traição em palavras destemidas, agora. Jogar-se pela janela havia sido um confronto à minha falta de paciência, ao meu gênio difícil, eu sei! Mas não era desculpa!
Um guerreiro feito do nanquim de gravuras enfrenta sozinho a desilusão de encontrar-me aos prantos e, sem repudiar-me, escreve em minhas lágrimas palavras ávidas de conforto.
Esqueço o quanto sofri, o quanto me enganei... Não penso mais em voltar.
Desse pequeno quarto onde me acolho desde os infindáveis tempos de alegria, retiro a máquina de escrever... E abandono!
Esqueço... abandono!
Na rua, estranhos me encaram assombrados com o ar fúnebre, enaltecidos pelo sorriso desencorajado de uma louca e pobre alma. Acho que finalmente me entreguei à loucura... À vã loucura desse amor desencorajado... De sopetão, paro! Entrego-me... E, de repente, toda minh'alma começa a sentir seu calor, sua vida... O chão molhado e sujo não impediu que meus joelhos o beijassem e minhas lágrimas, dessa vez quentes, dessa vez de felicidade, encontraram-no deitado à minha frente.
Peguei meu amor em meus braços, beijei-o, acariciei-o. Enfim, sentia tudo o que fiz ser retribuído... em cada gesto... em cada pensamento do meu ser! Coloquei-o, por fim, em meu bolso. Alguém poderia sentir-se tão só quanto eu... e não me importaria de dividir essa paixão!

Sensualidade Diáfana



Ela se deitou, envolta em adereços e ilusões, fazendo sua melhor pose, aquela que sabia que despertaria desejos sádicos e sangrentos nos alvos daquele estratagema.
A pessoa que comandava o show lhe dava as orientações e ela sentia aquela mesma conhecida sensação, ao dar todos os seus toques pessoais naquela demonstração de sensualidade e desejo.Uma pena que a maior parte do mistério e excitação já houvessem se dissolvido.

Se sentia por demais humana , frágil e aborrecida sob aquelas luzes brilhantes e aqueles olhares lúbricos, sabia que o encanto se fora. Mesmo assim, representava seu papel, sabendo que poderia perder seu lugar se seu desempenho não fosse sempre o melhor.

Não conseguia mais entender os desejos que despertava tão nitidamente, começava a reconhecer suas falhas, as repetições, o enfado que provavelmente já transpareceria em seus clientes. Clientes indiretos é claro, ela nunca vendera seu corpo ao vivo de verdade, não por pudor mas por um fator muito mais importante. Sabia que ao vivo não seria tão mística e sedutora, tão fatal e charmosa, tão poderosa e arrebatadora. Sentia que seria apenas humana demais, simples demais, ao se despir de todos os adereços, trespassar todos so fetiches e se entregar.

E por isso todos os dias ela voltava a dar o melhor de si para vender uma imagem a qual nunca se acharia capaz de superar realmente, apenas para garantir sua sobrevivência, e pelo prazer simples de se sentir elevada acima do patamar no qual sempre se encontrara: o dos reles mortais.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

Os Tártaros Elíseos de Eros

Ele se sentou na cama enxugando as lágrimas. Sua angústia despontava em seu peito, cada vez mais aguda. Sua respiração estava fraca e suas pernas trêmulas, não sabia se conseguiria ... -AAARR! Doía demais pensar nisso! Resolveu divagar...

Lembrou-se daquele jogo de RPG que tinha jogado : In Nomine.
Daquela história de anjos e demônios terem “corações”, coisas que simbolizam sua essência e que se forem destruídas podem significar ascensão ou decadência e até mesmo destruição. Lembrou-se de que muitas vezes esse coração ficava nas mãos de um superior militar, ou num local escondido. Pensou na beleza daquilo. Os anjos e os demônios não sendo necessariamente bons ou maus. Só são capazes de fazer escolhas boas ou ruins. Que grande metáfora da humanidade: Seres que não sabem se são bons ou ruins se julgando e atacando em meio a estereótipos que não conseguem entender e escondendo seus “corações” para evitar que lhes causem danos de verdade.
Pensou em como era estúpido que aquela fosse a única coisa que lhe vinha à mente no momento... se culpou por ser um maldito nerd que nunca teve jeito com garotas e chorou mais.

25 minutos e três copos de vodca com suco de laranja (de caixinha) depois, teve um estalo!

Entendeu porque se lembrara do maldito jogo numa hora como essa.

Percebeu que seu coração já havia sido arrancado e despedaçado e que o destino não estava em suas mãos. Quebrou o copo e se mutilou um pouco com os cacos, não o suficiente para gritar e chamar atenção.
Raciocinou de novo e finalmente entendeu: Ao entregar seu coração fez a melhor coisa que poderia ter feito e, portanto, muy provavelmente sofreria mais do que poderia suportar.

Essa certeza o tranqüilizou e fez com que adormecesse enquanto cantarolava...
We're just
Crawling Angels and Demons disguised...

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

Antagônia? (não, não discutam sobre o nome o.o")

Colhidas as flores, o perfume no ponto, nada poderia atrapalhar! Nem mesmo o nervosismo que engolia com uma ansiedade angustiante toda a coragem de passar por aquela porta!

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Estava sentado naquela maldita mesa há mais de uma hora, suando frio. Também, quem foi o imbecil que deu a idéia de chegar um bom tempo antes? Levei a sério! Ela, então, viria em trinta contados minutos.
O som abafado de um sino aos fundos não contribuía em nada para acalmar o palpitar frenético daquilo cujo lugar - errado, é claro! - já se fazia na minha garganta... Isso mesmo! O meu coração batia fortemente lá!... E colaborava para que eu gaguejasse um pouco.

Entre tantos embrulhos, desconfortos e tremedeiras, salto como quem levou uma picada de escorpião na bunda, as vistas embaçam e, então me dou conta: ela também se adiantou.

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... Quando foi que ela sentou-se à minha mesa? Estava tão linda que não ousei pronunciar sequer uma palavra. Podia sair merda. Ela sorriu e, nesse momento, tudo apagou.





...a emoção foi forte demais...

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Amor...

[um velho texto com algum toque de "romântico"... apenas algo pelo dia dos presentes bobamente fofos! =3 ... Apenas algo que eu gosto por não ter tempo de criar um melhor! XD ... Algo incompleto! Gosto da forma como a personagem principal trata Saphinne... ^_^ FELIZ DIA DOS NAMORADOS A TODOS!]

I Lição – Encenação Exótica da Morte (Exórdio)

Era tarde da noite e meus ossos já sentiam profundamente o frio. Meus olhos cansados fechavam-se sozinhos, já não sabia distinguir se era sono ou o fim dos meus dias. Respirar doía, sentia cada órgão meu corroído pela doença misteriosa que resolveu há poucos anos começar a consumir meu ser. Saphinne estava ali chorando. Como sempre, fiel, ao meu lado, sentindo por si só minhas dores e alegrias. Não preciso ao menos contá-la o que sinto.

Vê-la despejar suas imaculadas lágrimas sobre meu leito... Aquilo realmente me doía mais que qualquer outra coisa! E disso ela nada sabia. Há muito venho admirando aquela pele delicada da cor da neve que ansiosa, aguardava-nos lá fora. Com bochechas rosadas, dando vida a ela e acentuando sua meiguice, aqueles cabelos longos que desde que a conheço vejo em trança forte e reluzente, aqueles lábios rubros... Uma beleza que, de fato, era admirada por inúmeros homens inclusive da alta nobreza e que, na eternidade em que nos conhecemos, foi apontada aos meus olhos como uma boa companhia, apenas.

Ao pensar na sua formosura e no efeito que sua tristeza me causava principalmente naquele momento, comecei, de repente, a sentir tudo se afastar... Uma voz aguda gritava em meu ouvido e a escuridão tomava, nos meus olhos, o lugar de um grande quarto aconchegante todo decorado na cor branca. Caí no sono profundo... Talvez mais que qualquer outra vez que eu tenha dormido na minha vida. Apesar de tudo, meus sonhos foram confusos, pareciam infindáveis e cheios de sangue e não custou muito para que começasse a sentir algo me sufocar, como, coincidentemente, todas as outras vezes desde que estou com essa doença.

Saltei da cama. Estava finalmente sozinha e o ar gelado parecia cortar minha garganta lenta, vagarosa e impiedosamente a começar pelo seu interior. Já estava certa do meu fim. Minhas pernas tremiam e uma náusea tomava meu estômago. Foi quando não só meu coração como também o corpo todo deram um salto: a janela estava aberta. Como podiam aquelas grades gigantescas e deveras pesadas terem sido abertas pelo vento? Tinha certeza que estava só em meu quarto, afinal Saphinne sempre trancava a porta ao sair. A não ser que fosse um intruso. Afinal, o que isso me importava? Vi apenas um vulto me atacando, senti um golpe forte na cabeça e caí.

Realmente muito estranho. Dessa vez não sonhei com o habitual e mórbido sangue. Uma luz. De fato, uma luz muito bonita, como se pudesse dizer que há alguma feia, era apontada na minha direção. Como todo sofredor, ansiava por aquele momento: o fim. Mas não! Algo está me puxando, mantendo-me firme no chão. O que não deixa que eu suba e vá embora para o lugar onde sou chamada? Será que não me querem? Um clarão tomou tudo e foi quando voltei a sentir... Calor! Não me controlei e apenas um sorriso incompreensível tomou conta da minha face.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Dose Dupla

Peguei a fita métrica e sentei-me diante do espelho. Pensei que seria melhor medir numa estrada, pelos seus quilômetros... Encarei secamente aquele espinhudo gordinho que olhava fixamente nos meus olhos.
Eu sou desses céticos que não vêem nada no amor. Eu sou meio incrédulo, mesmo! Mas confesso que nesses últimos tempos tem-me incomodado aquele diacho de presença feminina. Não pela cinturinha, não pelos lindos cabelos. Outras que conheci o tinham também. Ela curtia Mozart e odiava o ballet. Ela gastava suas tardes enfrentando implacáveis e cruéis senhores da morte, sejam quais forem seus ramos, suas culturas. Ela tinha problemas de comunicação com os outros.

Passei os dedos entre os fios do cabelo, dessa vez analizando a córnea desse supérfluo ser que posava inerte diante de mim. Incrivelmente (ou não), me analizava também! Tomou-se de uma careta invejável e pôs-se novamente a pensar no que significa "amor"; E assim ficou a tarde toda. A me ignorar, a me medir, a me olhar.